Durante séculos o mapa parecia ditar sentença: sem dimensão, sem costa ou sem recursos clássicos, não havia prosperidade possível. Três nações —Noruega, El Salvador e Butão— provam o contrário. Não mudaram a sua geografia: mudaram a forma de a olhar.
As três histórias que se seguem têm estruturas distintas —petróleo, vulcões, rios— mas o mecanismo profundo é idêntico. Um recurso bruto que por si só se desperdiça ou se vende barato transforma-se em energia monetária: uma forma de valor densa, portátil e duradoura. Essa energia guarda-se e faz-se crescer até tornar-se património de longo prazo, e esse património acaba por reverter para o cidadão. Verás esta cadeia no início de cada país.
A ordem é deliberada: começamos pelo modelo mais consolidado e comprovado do mundo (Noruega, que nisto anda desde 1969), seguimos pela experiência mais mediática (El Salvador, 2021) e fechamos com o caso mais improvável e elegante (Butão, que minera desde 2019). Do demonstrado à fronteira.
Se mudares a tua forma de ver o problema, o problema transforma-se na tua maior oportunidade.
Em 1969 encontrou-se petróleo no Mar do Norte. Um país pequeno e frio de cinco milhões de pessoas deparou-se de repente com uma fortuna. A tentação óbvia —gastá-la— teria inflacionado a economia, encarecido a coroa e deixado uma ressaca quando o petróleo se esgotasse: a clássica maldição dos recursos.
A Noruega fez o contrário. Em 1990 criou um fundo soberano e decidiu uma regra quase monástica: o dinheiro do petróleo não se gasta, investe-se fora do país, e só se pode usar a cada ano uma parcela equivalente ao rendimento esperado (~3%). O capital, intacto, pertence também a quem ainda não nasceu.
El Salvador carregava um duplo estigma: pequeno e, durante décadas, um dos países mais violentos do mundo. O medo era um imposto invisível que expulsava talento, turismo e capital. A sua aposta foi sequencial: sem segurança não há investimento, e sem tecnologia não há salto.
A queda dos homicídios —de cerca de 51 por cada 100.000 habitantes em 2018 para valores mínimos na região— reabriu o país. Sobre essa base, em setembro de 2021 tornou-se o primeiro Estado a declarar a Bitcoin moeda com curso legal, e começou a minerar com o calor dos seus vulcões: a central geotérmica do Tecapa a alimentar máquinas de mineração.
O Butão é um reino budista dos Himalaias, encaixado entre a Índia e a China, com cerca de 800.000 habitantes e um detalhe único no planeta: é carbono-negativo. Os seus rios de montanha produzem tanta hidroeletricidade que durante a monção lhe sobra energia. Mas essa abundância tinha uma armadilha cruel.
O excedente do verão não se pode guardar (a eletricidade não se armazena facilmente a essa escala) e tinha apenas um comprador: a Índia, a uma tarifa fixa e baixa. No inverno, quando os rios diminuem, o Butão tinha de reimportar eletricidade cara. Energia a sobrar meio ano, escassez no outro meio. Geografia como destino.
E se essa energia que não cabia em nenhum cabo pudesse converter-se em algo que viaja por um cabo de fibra: valor digital?
Em 2019, com a bitcoin a cerca de 5.000 $, o fundo soberano Druk Holding & Investments começou a minerar em silêncio com esse excedente hidroelétrico. A mesma energia, em vez de se vender barata a um único vizinho, capturava valor do mercado global. Até 2024 o reino acumulou perto de 13.000 BTC —cerca de 40% do seu PIB—.
Exportar para a Índia a tarifa fixa e baixa, fixada por contrato, com um único comprador e apenas quando há linha disponível. Valor estável mas limitado e dependente.
A mesma energia captura valor de um mercado mundial, sem pedir permissão nem cabo, num ativo que ainda por cima se valorizou anos depois. Maior potencial, maior risco.
E a vida das pessoas? O problema mais grave do Butão é o êxodo de jovens: por volta de 2022 cerca de 10% da população tinha partido em busca de melhores salários. Em 2023 o governo vendeu cerca de 100 M$ em bitcoin para duplicar o salário dos funcionários públicos, o que travou as demissões no início de 2024. As minas empregam técnicos e engenheiros, e o projeto Gelephu Mindfulness City procura ancorar tudo isto numa cidade nova. O tesouro não ficou numa folha de cálculo: pagou salários e reteve pessoas.
A objeção mais comum soa razoável: a bitcoin gasta imensa energia; essa eletricidade deveria ir para hospitais, fábricas ou mais exportação. Mas essa frase esconde um pressuposto enorme: que alguém, de fora, sabe qual é o melhor uso de um recurso concreto, num lugar concreto, num momento concreto.
É exatamente o erro que Ludwig von Mises (1920) e Friedrich Hayek (1945) apontaram na economia planificada. Mises chamou-lhe o problema do cálculo económico; Hayek, o problema do conhecimento: a informação relevante para decidir não está concentrada numa mente perita, mas dispersa entre quem vive o problema. O planeador distante carece dos dados locais —e por isso falha—.
Por isso minerar bitcoin com energia presa (a que sobra e não tem outro comprador rentável) não compete com o hospital: é a que mais ninguém queria a esse preço, nesse sítio, nesse momento. O mesmo vale para o calor geotérmico salvadorenho que jorra quer se use quer não, ou para o petróleo norueguês que sem um fundo se teria desperdiçado em consumo imediato.
A Noruega, El Salvador e o Butão não esperaram por melhores cartas. Pegaram naquilo que muitos viam como uma limitação —petróleo que se esgota, violência paralisante, energia que não cabia em nenhum cabo— e desenharam uma saída criativa. Não para se copiarem às cegas: para nos lembrar que, na era digital, a agilidade do pequeno pode vencer a inércia do grande.
Conta o mito que Prometeu roubou o fogo do Olimpo e o entregou aos homens. Não lhes ofereceu ouro nem terras nem impérios: deu-lhes uma capacidade. Com o fogo chegaram a forja, o pão cozido, a noite iluminada e, sobretudo, a possibilidade de imaginar um amanhã diferente do hoje.
O conhecimento é esse fogo. A Noruega não enriqueceu por ter petróleo —muitos o têm e continuam pobres—, mas por saber o que fazer com ele. El Salvador não mudou pela geografia dos seus vulcões, mas pela ideia de os domar. O Butão não venceu o seu isolamento com um cabo mais comprido, mas com uma forma nova de olhar o seu próprio rio. Nos três casos o recurso já lá estava; o que faltava era a faísca de o compreender.
Quando acendes uma tocha com outra, a primeira não perde a sua chama. O conhecimento partilhado não se divide: multiplica-se.
Acumulá-lo em poucas mãos apaga-o; reparti-lo aviva-o. É a única riqueza que cresce ao ser oferecida, e a única alavanca capaz de tirar uma pessoa da pobreza —a económica e a intelectual— sem retirar nada a ninguém. A humanidade não avança por decreto: avança, de forma natural, quando o fogo passa de mão em mão.
Por isso este ensaio é livre. Não por se gabar de generosidade, mas porque encerrar uma ideia contradiz a sua natureza. Lê-o, copia-o, melhora-o e reparte-o. Se uma só pessoa perceber que a sua maior limitação podia ser a sua maior alavanca, o fogo terá feito o seu trabalho.